Maria Manuel P. Reis

Docente no Agrupamento de Escolas António Bento Franco, Ericeira

Seguida no IPO de Lisboa desde fevereiro de 2017

LUZES ESPECIAIS

Deambulava por ruas da cidade, sem querer mais do que isso: deambular.

Fazê-lo àquela hora era um fim em si mesmo. Não cumpria qualquer objetivo inicial. Por alguns minutos, sentei-me num banco da rua calcetada, e enviei uma mensagem, dando conta de mim. Dei duas ou três dentadas sôfregas num bolo que havia comprado, e que guardava para mais tarde. Comia-o aos pedaços e antecipava que, em breve, pouco restaria para mais tarde. Guardei desajeitadamente o que ainda restava. A boca francamente adoçada. Os dedos um tudo-nada lambuzados – pormenor insignificante.

Levantei-me e continuei. A tarde apressava-se e eu não queria ter pressa. Mas não ignorava que algumas buzinas, impacientemente ruidosas, retumbavam de nervosismo perante hesitações e paragens. A intermitência dos sinais e a morosidade do para-arranca já espessavam certas vias. O tráfego adensava-se, alongando o bulício e a espera. Alguns gestos temperamentais atraíam outros gestos.

Enquanto isso, continuava impoluta na indiferença a qualquer ruído. Desviava o olhar para formas e cheiros. Espaços decorados e castanhas assadas misturavam-se, combinando estações. Uma composição agradavelmente harmoniosa crescia a cada esquina, estendia-se de um lado a outro. Fisionomias, corpos e roupas quentes deslocavam-se em movimentos igualados, numa sincronia quase perfeita.

O dia fechava-se, escuramente, quando cada rua se encheu de uma luz que parecia desenrolar-se até muito longe, interminável. Uma extensão de enfeites, cor e brilho, diluía a escuridão e lustrava as superfícies. Um inverno próximo atirava uma aragem resfriada que me revigorava o rosto e picava os lábios. Uma última dentada em andamento, e o bolo terminava ali. Sentia o fim da tarde. Assistia à sua chegada, e mergulhava agora na rua final e no regresso. Pensativamente, antecipava, pela noite dentro, um toque quase invernoso entranhando-se, perpassando tudo à sua passagem, fazendo-se notado nessas ruas que haviam guiado os meus sentidos – perdidamente, livremente deambulantes, deambulando aos olhos de uma cidade iluminada.

Aos olhos de tantos outros lugares iluminados desta luz especial, cheia deste brilho, tão único na forma de brilhar assim.